sexta-feira, 1 de julho de 2011

Espelho.

Eu me olhei no espelho pelo o que parecia ser a primeira vez depois de anos, sem escrúpulos, sem medos. Olhei para a minha pele, meu rosto, meu corpo. Olhei para as pequenas curvas escondidas pelo blusão, para o sorriso que parecia tão forçado que chegava a doer. Olhei para as tantas cicatrizes do meu corpo - algumas brincadeiras de criança, outras que nunca poderiam ser vistas. Porque não eram cicatrizes físicas, eram da alma. Comparadas ao tamanho das que o corpo apresentava, não significava nada. Mas eram feitas de dor, de arrependimento, de loucura e sofrimento. Eu me demorei na boca, pois me aterrorizava o que eu veria a seguir: os olhos. Portas para a alma, diziam os poetas. Quem sabe ler olhos, lê mentes também. O que não sabem, porém, é que minha alma é suja, pisoteada e insignificante. É algo para o qual não vale a pena olhar. O que você vê em meus olhos não é a verdade, aqui dentro não existe essa força toda. Essa certeza que sempre tento demonstrar. Minha mente não é um livro bom, bonito de ser lido sem pressa. É algo fatal, capaz de calar o mais cantante passarinho. Capaz de entristecer a mais alegre criança. Já te disse, aqui dentro é sujeira. Dentro da alma, é onde fica o coração. E esse já foi tão maltratado, tão doído, que eu tive que substituí-lo pela primeira coisa que encontrei. Uma pedra - não dessas preciosas que custam caro. Uma dessas pedrinhas comuns, que se vê no dia a dia. Que se pisa em cima e nem se dá conta, sabe? Mas são resistentes, pelo menos. Servem de substitutas. Porque o verdadeiro, o que pulsa e sente, está contigo. E eu não ouso a tentar pegar-lo de volta.
 

Por: Andressa Carvalho

1 comentários:

Eu sou... disse...

Acho que é um dos textos mais encantadores que já li. Na verdade, eu se quer sei aonde encontrar palavras, adjetivos, para elogiá-lo. Texto verdadeiramente incrível! Parabéns, amei de verdade.

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